Depois: a politizar

Marcela, eu também já fui troféu

A mais recente publicação da revista Veja trás consigo uma matéria de três páginas sobre Marcela Temer, a esposa de Michel Temer – Vice-presidente da República, cujo título é “Bela, recatada e ‘do lar’ ” e apresenta Marcela como uma mulher-troféu e é exatamente sobre esta definição que vou escrever hoje.

A revista Veja, conhecida publicação e reconhecida nacionalmente como a principal revista de circulação do país, fez em sua última edição uma matéria sobre Marcela Temer, esposa do Vice-Presidente da República. A matéria apresenta Marcela como o exemplo de mulher a ser seguido: bela, recatada e do lar, demonstrando que as únicas características importantes para um mulher deve ser a manutenção da estética, o comportamento passivo e sua dedicação exclusiva à família e ao lar. Ótimo exemplo se vivêssemos nos anos de 1920.

Contudo, essa construção ou idealização de mulher feita pela revista representa o pensamento de uma classe conservadora da sociedade, a qual muitas de nós estamos ou já estivemos inseridas – percebendo ou não. Eu mesma já estive e é neste ponto em que me solidarizo com Marcela, pois eu também já fui tratada como troféu e não desejo isso a mulher alguma. Não somos objetos, somos pessoas e devemos ser vistas e respeitadas como tal.

Ser tratada como troféu é ter suas conquistas reduzidas e ter somente sua beleza, graça ou simpatia como algo a se(r) orgulhar. É ser reduzida a uma (bela) acompanhante, algo (belo) a ser olhado de longe e admirado, é ser tratada como boneca de porcelana, é ser enfeite. Ser tratada como troféu é ter, principalmente, o dever se estar bonita para que a sociedade se sinta satisfeita, não importando como você se sinta ou o quê você pensa. Aliás, pensar não é algo que você deve fazer, “você só deve ser”.

Ser alguém que está disposta a ser observada.

Ser alguém que está disposta a sempre sorrir para assédios.

Ser alguém que está disposta a se comportar como se não tivesse necessidades.

Ser alguém que está disposta a ouvir, acatar e silenciar.

Ser alguém que está disposta a largar tudo pelo homem certo e viver para ele.

Ser alguém que está disposta a aguardar o homem certo.

Ser alguém que não tem vida ou vontades próprias, ou que compreenda que sua vontade será ignorada “pelo seu próprio bem”.

Ser uma mulher-troféu é estar disposta a aparecer sempre bela e sorridente ao lado do seu dono homem, ignorando qualquer violência que ele tenha feito. Mais: ignorando que, provavelmente, quando a noite acabar ele a colocará em alguma estante e fará “coisas de homem”.

Ser uma mulher-troféu é mais uma das formas de  violência contra a mulher, é algo abominável e que ainda vemos acontecer seguidamente na nossa sociedade, reforçando estereótipos que colocam a mulher como propriedade do homem e submissa às suas vontades e deslegitimando as mulheres que fazem ao contrário, que se colocam como protagonistas ao invés de ficarem atrás das cortinas. Contudo, fugir da regra patriarcal que nos coloca deste modo é complicado pois envolve a quebra de muitas concepções e uma reestruturação do ser mulher.

Essa quebra e reestruturação vem sendo feita, socialmente, através das lutas feministas e aproximar-se delas é um dos caminhos mais fáceis para se perceber de outra maneira. Lutar contra a objetificação do patriarcado sob nossos corpos e nossos ser é cansativo e necessita de uma esforço diário mas, uma vez que o véu é retirado de frente dos nossos olhos é difícil acreditar nas velhas histórias de ouvíamos e vivíamos.

 

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