Antes: o amor

Um conto sobre a solidão e o frio

Tem noites em que a solidão aperta muito mais fundo no peito e hoje, eventualmente, foi uma dessas.

Acordei quanto tu se arrumava para sair, lembro de ouvir vozes que diziam “ela está dormindo”, “não, tudo bem” e “estou indo para aí”. Lembro de sentir o teu perfume, depois um beijo suave na bochecha e em seguida o silêncio. A cama fria. E o silêncio. Não que eu acredite que tu estará sempre ao meu lado, mas hoje em especifico tua companhia me fez falta. Não consegui mais dormir, fiquei aqui… contando minutos insuportáveis de silêncio em batidas cada vez mais altas do relógio.

A noite está fria… O que me salva é aquele teu cobertor velho que virou nosso cobertor velho. São os gatos que, por instinto, se jogam e se amontoam em mim. Mas ainda existe o silêncio e uma mente que junta frases aleatórias para me atormentar com diálogos que não convêm ao momento. Essa é a pior parte: as frases e diálogos que existiram mas, que nesse momento, tão fora de contexto, fazem o silêncio ficar insuportável. Já tentei por música, mas droga, esse é aquele tipo de silêncio que nem quando se está em meio a uma multidão ele acaba.

São duas e quinze da manhã.

É sábado a noite e tu saio enquanto eu dormia.

Aquele diálogo que tivemos mais cedo sobre relacionamentos livres não sai da minha cabeça, mas são meus olhos, ainda doloridos de tanto choro, que me lembram das minhas inseguranças. “Vai ser tu quem vai dizer quando podemos mas, eu já me sinto pronto para isso”. A urgência da tua fala fica desconexa à afirmação de que seria eu a dizer quando ou como. É quase como aquele “eu te amo mas precisamos terminar”…

São duas e meia da manhã.

Eu vi aquela moça te olhando com desejo hoje e, o que seria algo normal, me deixou desconfortável… Já ficávamos com outras pessoas, inclusive incentivávamos isso um no outro, então o que mudou? Saber que talvez não será a minha cama, a nossa cama, que tu esquentará hoje? Saber que não vai ser o meu gemido a embalar teu gozo? Saber que não será eu quem te esquentará depois?

Meu estômago embrulha. “Mas não pensa na noite em que eu não voltar e sim na que tu não voltar.” Impossível. Mas não espero que entenda isso, apesar da tua sensibilidade sabemos que fomos ensinados de modos diferentes a viver relacionamentos. Eu, mulher, ensinada a viver na monogamia, presa à casa, a família e ao lar feliz que é minha responsabilidade de manter. Tu, homem, ensinada desde sempre a poder; poder amar quem e quantas quiser, poder viver a poligamia e a monogamia ao mesmo tempo, sabendo que quando voltar dos braços de outras ainda terás um lar feliz e uma mulher a te esperar.

Duas e quarenta.

Os minutos pesam, o tempo? Voa. Meu controle emocional se esvai conforme os ponteiros do relógio avançam e a cama continua sem teu calor. Eu me remexo em lembranças e me desfaço em soluços. Não, eu não vou chorar. Eu não posso chorar. Eu não… Droga! As lágrimas brotam ser querer, tanto quanto a insegurança avança e o descontrole acontece. As palavras brotam dos meus dedos, lágrimas transformadas em letras e sons. Descontrole.

Duas e quarenta e cinco.

Enquanto eu choro, me arranho. Lembro da adolescência, do auto-boicote e das formas que encontrava para fazer a dor emocional se transformar em física. Sabe a história das unhas nunca crescerem? Mentira. Eu as corto curtas para não ter como me machucar. Ah sim, o descontrole emocional é um dos meus maiores problemas, só não supera minha capacidade de me boicotar.

Eu preciso de acalmar.

Eu preciso me a-cal-mar.

Calma.

Respira.

Calma.

Duas e cinquenta.

Silêncio e dor aguda no peito. Pego o telefone mas, para quem ligar? Solto-o e me concentro em respirar e me acalmar. Puxo um dos nossos gatos para mais perto, me concentro no ronronar dele e fico. Ali até tu chegar.

Será que chega?

Será…

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