Depois: a politizar

Porque luto sempre foi verbo de onde eu vim

Amanheceu e o golpe foi legitimado.

Acredito que deve ter sido mais ou menos assim que as pessoas amanheceram naquela Abril de 1964, confusos e sem muito informação do que acontecia, sabendo apenas que o governo anterior caíra e que, agora, o futuro seria melhor. Ledo engano. Foram anos de dor, repressão e violência. Anos de silênci(ament)o. Vinte e um anos nos quais o cabresto era regra e os senhores coronéis os líderes. Inquestionáveis. Irredutíveis.

E quando o desgaste político daquele sistema se tornou tão grande, os senhores coronéis mudaram suas nomenclaturas, mas seguiram os mesmos. Veio então a chamada Democracia. O povo festejou, alegrou-se e coloriu as ruas. Mas eles – os coronéis – também comemoravam… o povo tem memória curta, já não havia mais tempo para se lembrar do que passou, agora havia de ser tudo novo – menos eles, é claro -.

Anos 2000, virada do milénio, eu lá na creche e meus pais falando de um tal de Lula. Operário, nordestino e que tentava virar presidente. “Onde já se viu pobre quere ser presidente?” “Talvez seja uma mudança”. E foi. Mudou a realidade para todos os trabalhadores e trabalhadores. E para os filhos destes. E enquanto eu crescia sobre as asas deste governo, pude observar meus pais comprar coisas no super mercado que nunca imaginaram (“Antigamente não dava pra comprar tanta coisa” “Nunca imaginei que um dia comeria salmão” “Mas isso não é coisa de rico?”). Também pude ver meus pais voltarem a estudar (minha mãe toda orgulhosa na formatura do Ensino Médio é algo que nunca vou esquecer), ainda mais porque tiveram que para de estudar porque precisavam trabalhar, isso com seus 8 ou 9 anos de idade. “Mas naquele tempo era diferente…” Realmente, naquele tempo filho de pobre trabalhava e o do rico virava “doutor”. Filho do trabalhador era explorado e o do rico, explorador. Os coronéis continuaram os mesmo e o cabresto também.

Foi graças a este governo dirigido por um trabalhador – um pobre – que eu, filha de pobres, pude ter uma educação de qualidade e uma vida de qualidade. Consegui me formar e entrei na tão sonhado – e até pouco tempos antes, utópica – Universidade. Nisso, ela já havia chegado: a primeira mulher presidenta da República. Também trabalhadora e mais: guerrilheira. Ela havia lutado contra os coronéis e havia sobrevivido à eles. Junto com ela veio também o início da minha caminha pelo Feminismo, onde aprendi a importância física, histórica e simbólica de ter uma mulher na presidência.

Ano passado, ao contar a meu pai que pretendia continuar minha formação em outro estado, ele chorou. Mas não por causa da distância e sim porque sua filha lhe prometeu que seria doutora. A filha de um trabalhador seria doutora. Mas os coronéis ainda eram as mesmos e o cabresto também.

Ano passado os sonhos de uma proletária pareciam ter pertos de se realizar, mas nesta manhã percebi o quão longe isso acaba de se tornar. Hoje a primeira mulher presidenta, um dos maiores exemplos de luta que conheci, está sendo afastada injustamente de seu posto. Ela que se manteve longe da corrupção é julgada por aqueles mesmos coronéis de sempre, aqueles que alimentaram por anos a fio a corrupção neste país. Hoje, esses coronéis voltam à governar e meus sonhos proletários acabam de ficar mais longe.

Neste momento, não sei se vou conseguir cumprir a promessa que fiz a meu pai. Não sei se conseguirei ver aquele brilho nos olhos novamente e pouco sei o que será do futuro deles. Não sei se conseguirão comprar “coisa de rico” de novo ou se conseguirão manter as poucas coisas que conquistaram através do seu suor.

Hoje e sempre na minha vida, luto foi verbo.

E se for preciso, será o mesmo verbo que Dilma usou contra os coronéis.

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