Os questionamentos sobre sua personalidade eram vários e toda a vez que alguém julgava conhecê-la acaba surpreendendo-se, às vezes positivamente às vezes não. Mas de quem era o grande problema afinal, ela nunca prometera ser uma só e acreditava ser tão divertido poder ser várias ao longo da vida.

Ela era assim, ou melhor, elas eram assim. Viviam os momentos e as pessoas, cada uma aparecendo conforme o ambiente e o humor. Mas existiam outros fatores que também influenciavam na aparição de uma delas mas isso, ah bem, isso era imprevisível. Elas acreditavam que esta era a melhor forma de se viver, salvando-se da rotina corriqueira e da chatice do mundo, podiam vivenciar aquela única vida de diversas maneiras e jeitos, experimentando tudo que o mundo poderia lhe(s) oferecer. Ninguém nunca sabia qual iria aparecer contudo, sempre que chegavam, deixavam claro de quem se tratava. Nunca mudaram o nome mas o que é um nome perto das diferenças que olhares e posturas causam? E isso era a única coisa que não mudava nela porque de resto, amigo, ela era sempre uma surpresa. Os questionamentos e julgamentos de quem as via eram os mais variados, acredito que tão variados quanto as mulheres que a compunham.

Alguns se perguntavam de onde vinha aquela mulher que ria descaradamente e bebia compulsoriamente no bar sem pudor de ser, uma mulher tão livre e dona de si que chegava a intimidar. Poucos se arriscavam à chegar nela e os pouquíssimos que chegavam podiam ou não ter sorte, dependia do humor dela. Ácida, não perdoava os mais bem intencionados e fazia logo aquela piadinha que deixava-os claramente envergonhados. Também não perdia a chance de mandar aquele comentário certeiro quando esta afim e normalmente saía de lá acompanhada, o que não a impedia de provocar os demais.

Outro dia, aparecia aquela mulher que não poderia ser melhor descrita do que como uma bela e frágil mocinha dos filmes da Disney. Doce, sutil e encantadora, conseguia desmanchar qualquer cara feia com um único sorriso e derreter o coração dos maiores vilões com apenas um toque. Eu sei, parece impossível mas ela circula por uma biblioteca ou outra e o melhor jeito de encontra-la é no setor de romances.

As vezes também aparecia um outra figura curiosa, daquele tipo de mulher forte e decidida que colocava abaixo padrões e patrões somente com suas palavras e discursos. Essa mulher que tudo podia, não precisava de ninguém por perto e mesmo assim seu magnetismo fazia com que todos ficassem por aí.

Mas ainda havia aquela outra mulher, aquela que anda na rua de queixo erguido e com aquela postura de quem é dona da rua e com a qual não parece ser uma boa mexer. Essa última, parece trazer uma matilha de lobos atrás e nao transparece necessitar da proteção deles, muito pelo contrário, parece que ela mesma quem os lidera a briga toda. E por falar em briga, eu não arriscaria querer sair com ela no braço porque a mulher é porreta.

Contudo existe também outras tantas que surgem como quem não quer nada e fazem da sua vida um acontecimento, como aquela que é artista de palcos e letras, a outra que é a perfeita mãe de família, tem também aquela avó sábia que sabe fazer mandinga e benzedura. Há também aquela outra, tão normalmente comum que passa invisível aos nossos olhos. Mas todas tem uma coisa em comum, fisicamente são a mesma mulher.

“Como isso é possível?” perguntam-se todos… Pobres, não entendem a complexidade e a beleza de se ser assim, versátil e cheia de mil personalidade dentro de si. Mal compreendem como se pode ser um só, quem dirá ser cheio de eu’s. Ela ao contrário, adora as várias ela que a compõe e da espaço para que cada uma delas viva. Se há tanto espaço no mundo e a vida é só uma, para quê soterrar no peito as tantas possibilidades de se ser? era o que ela – ou elas – gostava(m) de dizer.

Quando aparecia alguém a dizer-lhe que isso era um grave problema, elas logo explicavam que o problema estava em se ser um só ou em não saber como lidar com os vários eu que compõe uma vida, afinal, quem é o mesmo todo dia? Melhor, que é ser o mesmo todo dia?

Enquanto alguns quabravam a cabeça tentando completar aquele quebra-cabeca de personalidades, outros mais espertos aproveitavam para conhecer e curtir a vida ao lado de todas elas. Ah, e não pense que elas só sabia amar uma de cada vez… elas amavam ao mesmo tempo diferentes pessoas e personalidades, amavam e cuidavam com o carinho máximo que cada uma sabia dar e sabiam que davam o máximo de si para àqueles a quem amavam.

Confuso? Elas preferem dizer complexo. Detestam a normalidade e o comum. Quer dizer, tem uma delas que gosta do comum… Ah, deixe que elas se entendam mas entre e aproveite, conhecê-las será um dos maiores desafios (ou não, tem algumas delas que se entregam facilmente). Só um conselho: não tente definí-las, isso nem elas mesmo ousam fazer.

Anúncios