Por muito tempo fiquei a deriva no mar; sem ventos a soprar nem fôlego para mergulhar, fui repensando minha vida e as escolhas que me levaram até o momento em que me encontrava, perdida e abandonada a própria sorte por mim mesma.

Parecia que tudo havia chegado ao fim. Eu havia me abandonado. Ou melhor, desistido de mim mesma. O sol estava escaldante, não havia mais comida e nem água para mim e toda a força que me restava estava concentrada em não enlouquecer. Não ali. Não onde eu havia me feito forte e corajosa, não ali onde eu decidirá descobrir o mundo. Não naquele que era o meu lugar.

Muito tempo atrás eu decidira aprender a navegar aquele barco, decidi tomar os remos em minhas mãos e descobrir para quê o mundo era feito. E se ele era para mim. E se não fosse, eu o faria ser. Ali, no momento em que peguei os remos, joguei fora a bússola e percebi que eu era meu próprio Sol e que eu navegaria na direção que o meu norte apontasse. Isso me levou a muitas encrencas, tantas quantas posso contar… mas há muitas surpresas agradáveis também, tantas que perdi as contas.

As primeiras navegações me fizeram ter vontade de voltar o mais rápido possível ao porto para entregar aquele barco à um capitão mais capaz, mas o tempo… ele prega muitas peças e quando eu percebi, a distância do porto havia feito com que cada onda fosse parecendo menor, que cada temporal menos insignificante e a cada novo problema eu fui me descobrindo mais capaz de cuidar daquele barco e da navegação. Vez ou outra caía num canto de sereia, me distraia e acabava mergulhando em mares, em contos, copos, corpos e tesouros. Sempre voltei. Inteira ou com algum pedaço faltando, mas sempre voltei.

Mas desta vez eu me encontrava ali: perdida e sem rumo, sem força e/ou vontade de voltar a navegar. Eu não sentia. Eu não ligava. Eu morria e me matava aos poucos. Emudecida pela dor e pela confusão, entrei em discussões internas comigo mesma que levaram dias. semanas. meses. Tudo estava fora do lugar, eu estava fora do lugar. de mim mesma. E isso era muito problemático. Percebia que vez ou outra cruzava algum pássaro pelo céu mas nada além disso. Foi como se tudo tivesse virado uma página em branco.

Mas são em páginas em branco que começamos a escrever as novas histórias.

 Então, feito temporal que surge em pleno verão algo dentro de mim mudou. Fui encaixando as peças, as pessoas e os meus eu’s.  Fui percebendo os motivos e admitindo, pela primeira vez, que eu não deveria ter dito tanto sim. Que era dos meus nãos que o mundo precisava. Que os outros precisavam. E que eu – mais importante ainda- precisava. Então veio a consciência dos atos, a solidão da vida e a certeza de que eu havia renascido em mim. Ou talvez tenha renascido para mim. E pela primeira vez na vida me senti realmente livre dos pesos, das pessoas e principalmente das escolhas. Foi ali que percebi que algo havia morrido e que a velha capitã jamais voltaria, e tudo que ela significava e tinha havia morrido junto.

As velhas oportunidades, as velhas companhias já não me bastavam…

Em um momento de clareza, despertei para mim a consciência de que tudo o que vivi até ali – as escolhas, brigas, atos –  tinham sido uma tentativa de voltar ao porto que sempre me fora seguro, coisa que eu nunca havia feito questão de analisar. Também me percebi tendo respostas muito profundas sobre minhas ações e o modo como me via frente ao mundo, respostas para vários porquês que enchiam o meu peito como um barco furado que insiste em navegar. E como um grito de “fogo!” ressurgi em mim mesma com esclarecimentos e conhecimentos. E conhecimento é uma arma muito perigoso, principalmente quando sabemos que devemos usá-la contra nós mesmos…

Neste momento em diante percebi que não importava se havia vento ou não, se o mar tinha tesouros ou monstros, eu era a capitã daquele barco. Eu decidiria para onde ir e como iria. E era hora de partir. Mar. Terra. Ar. Eu ganharia o mundo se quisesse e, pela primeira vez, eu havia perdido o medo de o querer. Pela primeira vez em toda a minha vida eu percebi que eu tinha poder para decidir a minha própria vida e experimentá-la do meu jeito. Não sei o que houve, mas foi ali que percebi a minha força. E eu sou forte o suficiente para enfrentar tempestades, naufrágios, tempos de seca, sol escaldante, a falta ou o excesso de ventos.

Não sei o que o mundo me reserva mas estou partindo para ele. Não me espere pois acabo de cair no mundo e não garanto que eu volte. E não tente me acompanhar, existem experimentações que preciso fazer sozinha. Se nos cruzarmos por ai, me aproveita, nunca mais poderei dizer que ficarei.

O para sempre morreu. A partir de hoje, só existe o agora.

Anúncios