Eu sei como esse amor nasceu.
Sei onde e como ele cresceu.
Sei do que se alimentou.
E também sei como encontrou esse fim.

Entre tantas promessas de continuidade e eternidade,
entre tantos sonhos e utopias
fui me esquecendo de mim
e mergulhando em nós.
Fui deixando de ser eu,
diminuindo meu passo para permanecer ao teu lado
ignorando minhas necessidades de voar para ser tua, em gaiola
forçando uma natureza que não era a minha
disfarçando meu eu e minhas dores
tudo para manter-me presa à ti.

Eu te amei e tu me amou, disso não tenho dúvidas. Fomos antes de amantes, companheiros e isso ajudou-me como tu nunca imaginará. Eu, coruja ferida, precisa de ninho para reaprender a voar. Tu, menino-hiena, trouxe-me de volta à vida e ensinou-me a caçar, trouxe-me de volta a mim mesma quando nada o podia fazer. Tu ensinou-me a arrancar as penas e esperar que novas crescessem; tu lambeu-me as feridas, protegeu-me do mundo quando eu precisava mas também foi tu quem me empurrou para fora e incentivou-me obrigou-me a voar.

Tu me presenteou com a liberdade e isso eu nunca esquecerei.

Mas coruja curada, ao sentir-se novamente dona de si não quis mais a gaiola para viver. Percebeu que os céus pertenciam a ela e que nada deveria obrigá-la a ser menos do que era. E nem por amor deveria ser menos do que poderia ser, afinal amor só pode ser quando somos o máximo que podemos e o outro nos acompanha.

Sempre te disse que queria te ver correndo e ganhando o mundo, mas como bem me mostraste, se o fizesse eu não acompanharia assim como também tinha preguiça de o fazer. Acontece que eu diminui para ficar ao teu lado quando tu te fez menos e isso não é certo. Eu preciso voar e não o posso fazer presa ao chão. Eu pertenço aos ares assim como tu pertence ao mundo, não nos limitemos para ficarmos juntos quando o mundo pode tremer frente às nossas patas.

Ainda te verei de novo, talvez em outro continente ou em outra encarnação. De perto ou de longe, tu sempre estará sob meus olhares e meus cuidados, pois tenho nos olhos a magia de observar o mundo e nas asas o poder do voar. Te cuida menino-hiena pois a partir de hoje te observarei  amarei de longe – com saudade – do que fomos e somos.

Nossas vidas jamais serão as mesmas, obrigado por tudo.

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