Antes: o amor, Durante: a vida

São tempos de calmaria no mar.

– E então Capitã, para onde vais agora?

A pergunta a corroía por dentro há dias. Não sabia para onde ir e nem se precisava ir.

Ali naquela cama havia encontrado o porto mais seguro que seus sonhos já haviam desejado e naqueles olhos castanhos ela encontrado a terra prometida para todo navegante, onde havia-se como plantar, comer e principalmente viver em liberdade. E ela que havia estada a navegar durante todo o tempo reconhecia a liberdade de se estar em terra e mesmo assim poder navegar a qualquer momento, agora talvez não mais só…

– Não decidi ainda sobre meu próximo destino, isso é… creio que nunca decidi-me sobre meus destinos, eles simplesmente aconteciam. Um momento eu estava em plena tempestade e de repente, quando as nuvens passavam, dava-me de cara com um novo entreposto comercial ou com uma ilha ainda não documentada. Mas ainda não sei Senhor o que farei dos meus anos, talvez encontrar terra firme e vigorosa, onde meus sonhos possam voar livremente e nos finais de tarde terem casa para voltar…

A última frase disse-lhe sorrindo, um daqueles sorrisos doces que vez e outra cruzavam os traços daquela cansada maruja, enquanto buscava no espelho dos olhos castanhos uma resposta.

Meio bruxa meio sereia, aquela moça dos olhos azuis como o mar, que sabia ler as intenções dos outros em seus olhos e olhar a alma dos homens como quem vislumbra um espelho, sabia onde procurar abrigo. Os anos navegando só a permitiram conhecer e reconhecer um porto seguro quando via um, e mais do que isso, os anos a permitiram reconhecer a força interior daqueles que escolhem a solidão por medo, e ao olhar no fundo daquelas duas esferas castanhas encontrou não somente o brilho de uma alegria esperançosa como também o lampejo de um segredo guardado tão fundo naquela alma.

Quando finalmente leu o que estava escrito naqueles olhos, tonteou. “Será mesmo possível que… mas nós… é como ficarão as… mas e tudo que ele já cantou sobre elas?” E naquele momento a dúvida abateu-se em seu semblante e o peso do conhecimento deixou-a cabisbaixa.

– Está tudo bem? Viu algo que não lhe agradou em meus olhos?

As perguntas deixaram-na zonza. As respostas saltavam do seu peito em direção a garanta mas a trava da língua ainda segurava aquilo que estava para ser a maior maremoto da sua vida. Lembrou-se então dos velhos mantras e, apertando as fivelas da alma, olhou novamente para aqueles olhos castanhos e beijou a boca daquele, que entre todo o temporal e desespero, tornou-se porto de partida, chegada e permanência para ela.

A partir daquela noite muita coisa na vida da Capitã mudou. Ela deixou para trás a vida de despatriada pois encontrou no fundo de dois olhos um chão para viver; deixou para trás também a vida de corre-mundo pois agora havia um lar para se voltar ao final do dia e um amor para cuida. Aprendeu a mexer com a terra e ensinou a pescar no mar.

Seu velho barco? Está ancorado no porto só esperando que o jovem casal faça suas malas e viaje pelo mundo pois agora esta Capitã só navega ao lado daquele que com sua voz e amor fez com que ela desistisse de andar só. O inverno deixa suas últimas lembranças e que venha o verão para acalentar a pele desses dois.

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